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O propósito da arte

Este ensaio nasce da decisão de Philip Glass de retirar sua obra do Kennedy Center e das reações institucionais, formuladas a partir de posições de direção cultural, que tentaram redefinir a arte como entretenimento neutro.

A insistência em reduzir a arte a entretenimento despolitizado não é um desvio menor nem um equívoco circunstancial. Ela revela uma incompreensão profunda do propósito da arte e do lugar que a criação ocupa na vida humana. Quando instituições culturais defendem uma arte neutra, confortável e consensual, não estão protegendo o público, mas tentando deslocar a arte de sua função vital. A arte não existe para preencher o tempo livre nem para suavizar conflitos. Ela existe porque a vida exige escuta, tensão e atenção ao que não se acomoda facilmente.

É a partir dessa exigência que a arte se constitui não como distração, mas como prática de escuta do mundo, enraizada na experiência, no tempo histórico e na responsabilidade sensível com a vida. Ela nasce do atrito com a realidade e da recusa em aceitar como natural aquilo que silencia, simplifica ou empobrece a experiência humana.

Como afirmava Hélio Oiticica, a arte só cumpre sua função quando desestabiliza. Quando interrompe o automatismo do olhar, desorganiza certezas e cria espaço para outras formas de sentir e perceber. A arte que apenas confirma expectativas deixa de escutar. E quando deixa de escutar, perde sua razão de existir.

É nesse horizonte que a decisão de Philip Glass de retirar sua sinfonia do Kennedy Center deve ser compreendida. Não se trata de erro político nem de reação impulsiva, mas de um gesto de coerência. Assim como a posição assumida por Béla Fleck e por outros artistas que optaram pela retirada, trata se de um exercício de integridade estética sustentado pela integridade do artista. Não há separação possível entre obra e vida quando o contexto institucional passa a operar como enquadramento simbólico que neutraliza o sentido da criação.

Ao afirmar que não há lugar para política nas artes, Roma Daravi não elimina a política do campo artístico. Apenas a substitui por uma política silenciosa, aquela que atua pela normalização, pela supressão do conflito e pela domesticação do dissenso. Do mesmo modo, quando Richard Grenell defende uma arte que simplesmente entretenha a todos, propõe uma concepção de criação que abdica de sua potência crítica em nome de um consenso confortável.

A arte não pertence a espectros ideológicos. Ela pertence à complexidade da experiência humana, à diversidade das existências e à defesa da dignidade da vida. Seu compromisso não é com a manutenção de gestões nem com o conforto das audiências, mas com a ampliação do sensível e do pensável. Uma arte que não incomoda, que se cala diante da imposição de símbolos de poder ou que aceita a neutralidade como virtude, deixa de ser arte e passa a operar como mercadoria.

A história da humanidade confirma que governar em sistemas complexos exige muito mais do que impor silêncio sob o pretexto da neutralidade. Sempre que a gestão tenta converter a arte em território dócil e consensual, o que se produz não é equilíbrio, mas empobrecimento simbólico. Ceder a esse enquadramento é aceitar que a arte funcione como ornamento inofensivo, privada de risco e de escuta.

Diante disso, a recusa dos artistas não é ruptura gratuita, mas responsabilidade. A arte não existe para confortar sistemas nem para validar poderes. Sua função primordial é manter aberto o campo da escuta, sustentar a atenção ao que insiste em emergir e lembrar que, onde a escuta se fecha, a vida também começa a se reduzir. © 2026 Vilma Machado

 
 
 

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