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Pensar com vozes herdadas. Escutar entre mundos ainda separados.

Atualizado: 5 de mai.


© 2012 Vilma Machado
© 2012 Vilma Machado

Uma amiga me escreveu a partir de um post meu e me deixou uma pergunta cuja precisão me deteve. Se a tradição filosófica publicada é majoritariamente masculina, isso pode gerar distorções, ou ao menos dúvidas, em nós, mulheres. A força da pergunta não está apenas no que enuncia, mas no tempo em que se coloca. Não pergunta o que uma herança produziu, pergunta o que uma estrutura ainda produz. E isso desloca inteiramente o problema.

Porque a questão deixa de ser apenas a composição histórica do cânone e passa a tocar algo mais fundo, o modo como categorias, percepções e formas de pensar continuam operando, muitas vezes sem serem interrogadas. O problema, então, não está em homens terem pensado, nem em mulheres terem sido parcialmente excluídas dos sistemas de legitimação do pensamento. Isso é parte da história. Mas não é ainda o centro da questão. O centro está em compreender o que acontece quando qualquer tradição se fecha sobre si mesma, naturaliza seus próprios limites e passa a operar como se as formas pelas quais pensa o mundo fossem o próprio mundo.

Nesse sentido, a pergunta sobre distorção não se resolve por correção identitária, nem pela simples substituição de um repertório por outro. Substituir um cânone por outro, mantendo intacta a lógica do fechamento, apenas desloca o ocupante da estrutura sem transformar a estrutura. E talvez seja precisamente aí que a reflexão se torna mais exigente.

Durante muito tempo, muitas mulheres precisaram lutar para serem ouvidas, conquistar presença, voz e legitimidade. Essa luta não foi lateral. Foi constitutiva. Mas chega um momento em que conquistar voz, por si só, já não basta, se essa conquista não se abre também à questão da escuta. E não uso escuta aqui como sensibilidade vaga, nem como virtude moral. Falo da escuta como condição de relação com o real, como capacidade de perceber aquilo que uma estrutura tende a excluir, aquilo que o automatismo não vê, aquilo que o poder não reconhece quando opera apenas a partir de si.

É nesse ponto que a pergunta de minha amiga encontra algo sobre o qual venho pensando e refletindo há muito tempo. O problema não é apenas que mulheres precisem encontrar narrativas próprias. O problema é imaginar que isso possa se dar como elaboração separada. Os universos feminino e masculino não podem continuar se constituindo como campos apartados e se desenvolvendo separados. Precisam amadurecer juntos.

Talvez por isso me interessem tanto pensadoras como Simone Weil, Hannah Arendt e Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, que não apenas introduzem e ampliam vozes em um campo majoritariamente masculino, como deslocam a própria arquitetura desse pensamento e tensionam a estrutura do pensar.

E talvez esse seja o ponto mais decisivo. A questão não é apenas quem entra no pensamento, mas se o pensamento permanece aberto ao que ainda não foi pensado.

Assim, a pergunta de minha amiga nos leva a uma outra reflexão ainda mais exigente. A de que qualquer pensamento que opere sem escuta gera, sem dúvida, distorções em todos nós. (c) 2026 Vilma Machado

 
 
 

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